3 dias pelo deserto boliviano

postado em: Bolívia, Crônicas, Todos os posts | 0

Fundada em 1890 como um entreposto comercial, Uyuni, cidadezinha de 11 mil habitantes no sudoeste da Bolívia, está localizada em meio a uma paisagem desértica de extremos, onde o frio congelante noturno contrasta com o calor infernal diurno em questão de poucas horas.

A região atrai visitantes do mundo todo em busca de paisagens surreais e cenários inacreditáveis, nos quais se destacam o Salar de Uyuni, lagoas multicoloridas cheias de flamingos, vulcões e gêiseres*.

Esses pontos podem ser alcançados nos potentes carros 4×4 das inúmeras agências de turismo em Uyuni. Há passeios de 1, 2 ou 3 dias, mas só o mais longo, de 3 dias, permite visitar todos os pontos de interesse, a um custo que varia entre Bs800 e 1.000Bs por pessoa (“Bolivianos”, a moeda local. Hoje: US$1 = Bs6,85). 

Não compre com antecedência, a não ser que faça questão de alguma agência específica. Para conseguir bons preços, nada substitui o poder da barganha ao negociar diretamente com o vendedor, quando já estiver em Uyuni. Também é bom conversar sobre o roteiro e ver se aquela agência não é uma furada. 
Contemplando o Salar de Uyuni
O Salar de Uyuni é a maior planície de sal do mundo, com cerca de 10.500km2. Remanescente da evaporação das águas do imenso Lago Minchín, há cerca de 40.000 anos, é o maior depósito de lítio do mundo, contendo também quantidades consideráveis de magnésio, potássio e boro

A viagem La Paz – Uyuni

Na rodoviária de La Paz comprei minha passagem para Uyuni por Bs170 na Omar Turismo. O ônibus era confortável e, no meio da madrugada ficou parado no meio do deserto boliviano, quando muitas pessoas subiram a bordo. Um outro ônibus havia quebrado na estrada e seus passageiros foram transferidos  para aquele em que eu estava. Uma senhora tentava, de todo jeito, enfiar um grande saco de folhas de coca no bagageiro que fica acima das poltronas. No esforço da operação, as folhas voavam para todos os lados. Ao final do embarque dos passageiros extras, retomamos viagem, e aí já havia gente para todos os lados, desde dentro do banheiro até o corredor.

Cheguei a Uyuni por volta das 6h da manhã, após cerca de 7 horas de viagem. Na janela do ônibus, o vapor congelado dava ideia do frio que fazia lá fora.

Já fora do ônibus, encontrei o Tiago, um outro brasileiro que havia conhecido ao cruzar a fronteira Peru-Bolívia, dias atrás. Fomos abordados por uma simpática senhora que, entusiasmadamente, oferecia café da manhã em seu quente e aconchegante restaurante a alguns quarteirões dali. Não hesitamos. Em busca de abrigo do frio congelante que fazia, rumamos ao Nonis Café, lugar muito arrumado, limpo e, realmente, aconchegante! A opção mais barata (café, chá, torradas, pão e manteiga) custava Bs15.

Terminado o desayuno, saímos em busca de uma agência para fechar o passeio pela região. Nessa procura, acabamos optando por agências diferentes.

O passeio

Dia 1

Fechei o passeio de 3 dias com a Colque Tours por Bs800, empresa recomendada pela Lonely Planet e que, por já estar com lotação completa para o dia, sem me avisar, me encaminhou para um motorista independente, o Hugo, um boliviano da região, que também seria guia e cozinheiro pelos próximos 3 dias. Não sei por que motivo, ele me chamava o tempo todo de Alex, mesmo sabendo meu nome. Assim, também comecei a chamá-lo de Alex.

Completaram a lotação do carro duas americanas de Nova York e um casal peruano e, por volta de 11h, saímos de Uyuni, rumo ao salar.

A primeira parada foi no Cemitério de Trens, um ferro velho onde estão espalhadas velhas locomotivas e vagões enferrujados da época de Uyuni como entreposto comercial. Depois fomos até Colchani, um pequeno povoado à beira do salar no qual os habitantes vivem da extração do sal e da venda de artesanato: pequenas esculturas de sal, porta-joias de sal, utensílios de sal e até copos de sal eram vendidos ali. Só Deus sabe como beber algo em um copo de sal!

Saindo da vila, seguimos o roteiro pelo deserto de sal rumo à Isla del Pescado, um afloramento rochoso coberto por cactos gigantes, onde se pode caminhar pelas trilhas e apreciar o visual daquela imensidão branca e os montes vulcânicos azulados ao longe. Um espetáculo de cair o queixo!

Monumento às nações no Salar de Uyuni
Monumento às nações no Salar de Uyuni

Ao sair da Isla del Pescado, o casal peruano foi substituído por um casal austríaco, que passaria a integrar nossa caravana internacional pelos desertos do altiplano boliviano.

O passeio pelo Salar de Uyuni propriamente dito só acontece no primeiro dia. Ao final da tarde já atravessávamos terrenos rochosos áridos com plantações de quinoa, preciosidade da culinária andina.

Passamos a primeira noite em um povoado chamado San Juán, no Hostal Los Lípez, um hotel construído com tijolos de sal no qual até as camas são feitas de sal. No jantar reunimos o grupo e comemos batatas cozidas e frango frito, regados a vinho e cerveja.

Dia 2

No segundo dia vimos as paisagens impressionantes na Reserva Eduardo Avaroa. Lagunas salobras coloridas, cheias de flamingos cor-de-rosa e sais precipitados nas bordas, formavam um contraste sensacional com a paisagem vulcânica de tonalidades escuras e a pouquíssima vegetação. 

Flamingos na Reserva Eduardo Avaroa
Flamingos na Reserva Eduardo Avaroa

A Reserva Eduardo Avaroa fica na tríplice fronteira Bolívia/Chile/Argentina, e abrange uma área de quase 715.000 hectares, com flora e fauna singulares, além de maravilhas geológicas como vulcões, gêiseres, fumarolas e lagoas multicoloridas. Seu nome se deve ao herói de guerra Coronel Eduardo Avaroa, uma figura importante na Guerra do Pacífico, que envolveu Chile, Bolívia e Peru em disputas territoriais.

A sensação que se tem ali é de um estranho vazio por se estar em um lugar remoto, cujo silêncio e isolamento só são quebrados quando os potentes jipes 4×4 aparecem cheios de turistas, que tiram suas fotos e vão embora logo em seguida, deixando o lugar em sua paz original.

No meio da tarde, com o carro varando aquela imensidão desértica surreal, caí no sono, sonhando com flamingos alucinados em lagoas coloridas. Com um solavanco, acordei no meio daquela paisagem plana e estéril. Não há um arbusto sequer…nem flamingos coloridos, nem lagoas alucinadas…mas uma árvore aparecia ao longe…uma árvore de pedra! Vulcões adormecidos de tonalidades escuras marcavam o horizonte. Logo chegaríamos ao local onde a “Árbol de Piedra” se ergue uns 5m acima do nível do solo, uma imponente estrutura de rocha vulcânica esculpida pelo vento ao longo dos séculos. Outras feições geradas pela erosão eólica davam ao lugar um efeito irreal, como se estivéssemos em outro planeta.

Nesse dia ainda cumpriríamos uma grande distância pelo deserto e, ao final, chegamos a um povoado muito pequeno, que parece existir somente para receber os visitantes chegam até ali nesses passeios. A noite, como sempre, era muito fria, e não havia água quente. Banho, nem pensar!

A Árvore de Pedra
A Árvore de Pedra

Dia 3

O terceiro dia começou antes do sol raiar e fazia um frio terrível! A ideia era pegar o sol nascendo na região dos gêiseres* e observar o efeito que a luz da alvorada faz ao atravessar os vapores exalados por aquelas fétidas maravilhas geológicas. O chão é amarelado, coberto pelo enxofre que impregna toda a área com o tão desagradável e característico aroma. O barulho ensurdecedor dos jatos de vapor liberados com violência das entranhas da Terra era impressionante!

Vapores vulcânicos enchem o ar da alvorada na região dos gêiseres
Vapores vulcânicos enchem o ar da alvorada na região dos gêiseres

Ainda chegaríamos próximo à fronteira com o Chile, onde o vulcão Licancabur se ergue às margens da Laguna Verde. Uma visão e tanto!

Quem quiser, naquele ponto pode cruzar a fronteira e pegar um transporte até San Pedro de Atacama, no Chile, e dali seguir viagem por esse país incrível! Basta acertar com a agência previamente.

Não foi isso que fiz e, no caminho de volta a Uyuni, estava uma das atrações mais esperadas do passeio: uma piscina de águas termais a uma temperatura média de 40°C no meio do deserto frio. É claro que eu não deixei a oportunidade passar! Por Bs3, feliz, entrei na água. Lá fora, um outro mundo, frio e com rajadas de vento terríveis. Sair da piscina é que não foi nada fácil.

Chegamos de volta a Uyuni ao final da tarde. Me despedi dos amigos e fui até o escritório da Todo Turismo, empresa com a qual já havia comprado a passagem de volta a La Paz. Aí foi só esperar o ônibus sair. Chegaria a La Paz na manhã do dia seguinte.

* Como geólogo, gostaria de esclarecer que as aberturas no chão que emitem gases vulcânicos naquela região são de fato fumarolas, e não gêiseres. Por isso marquei a palavra no texto, mas preferi me manter fiel ao termo utilizado como referência na região e nos guias turísticos. Gêiseres liberam fortes jatos de água quente, além de vapores, o que não é o caso.

Curtiu? Compartilhe!Share on FacebookTweet about this on TwitterPin on PinterestShare on Google+

Deixe uma resposta