Copacabana e Isla del Sol

Copacabana fica a cerca de 3800m de altitude, à beira do Lago Titicaca, o lago navegável mais alto do mundo. O nome não deriva do bairro carioca, mas sim da expressão em Aymará “kota kawana”, que quer dizer “vista do lago”. O nome do bairro do Rio é que vem da Copacabana boliviana, mas isso é outra história.

Aqui (na Copa boliviana, não no Rio) você pode ver em primeira mão o quanto a população local leva a sério sua religiosidade. A Basílica de Nossa Senhora de Copacabana é um ícone do fervor religioso boliviano. Além da basílica, outros atrativos da cidade são o Monte Calvário, cuja trilha que leva ao topo apresenta monumentos que ilustram os estágios da paixão de cristo, e a orla do lago, cheia de bares descolados, repletos de mochileiros.

A cidade de Copacabana, à beira do lago Titicaca, na Bolívia
A cidade de Copacabana, à beira do lago Titicaca, na Bolívia

Do cais de Copacabana saem barcos rumo à Isla del Sol, onde, segundo o folclore andino, a civilização inca teve origem. Esses barcos saem o tempo todo, seja rumo a Yumani, o povoado mais estruturado, que fica no sul da ilha, ou à Cha’llapampa, um vilarejo mais rústico, no norte.

Na Isla del Sol há várias ruínas e monumentos pré-colombianos. A população descende diretamente dos incas e aimarás, que viviam ali antes da chegada dos espanhóis, e seu estilo de vida ainda é muito semelhante aos de seus antepassados.

Paisagem próxima ao povoado de Challapampa, no norte da Isla del Sol
Paisagem próxima ao povoado de Challapampa, no norte da Isla del Sol

Copacabana

Cheguei à Copacabana vindo de ônibus desde Cusco, no Peru, com uma parada em Puno para troca de ônibus e depois em Yunguyo na fronteira Peru/Bolívia. A viagem completa levou cerca de 12 horas, contando as paradas.

A Bolívia é um país muito religioso, onde dogmas da igreja Católica se mesclam fabulosamente com a cultura andina pré-colombiana e seus costumes pagãos, por mais contraditório que isso pareça. A Basílica de Nossa Senhora de Copacabana é um ícone dessa mistura, construída na época da colonização espanhola e repleta de simbolismos, dentre os quais o que mais impressiona é a imagem da Virgem de Copacabana, talhada no século XVI pelo mestiço Francisco Tito Yupanqui, e cuja fisionomia apresenta traços indígenas.

Após uma breve caminhada pela cidade e uma visita à Basílica, tratei de almoçar uma truta frita (vinda diretamente do Lago Titicaca) e logo depois me meti em um barco rumo à Isla del Sol onde surgiram ninguém menos que Manco Capac e Mama Ocllo, os primeiros incas.

Isla del Sol

O barco era pequeno e tinha o teto plano, sobre o qual era possível viajar tranquilamente, sentindo o vento seco e frio e o sol forte do altiplano boliviano. Dali tinha uma vista desimpedida do imenso lago, com seu azul profundo, e das montanhas geladas ao longe. Enquanto observava aquilo tudo e conversava com os recém conhecidos companheiros de jornada, eu mascava folhas de coca para amenizar os efeitos da altitude. Uma senhora indígena, que usava tranças e o típico chapéu côco, trazia um menino às costas, enrolado em um pano listrado colorido, à maneira andina.

A ilha possui dois povoados principais: Yumani, no sul, com mais estrutura e mais opções de hospedagem, e Challapampa, no norte, mais rústico. Amante das singularidades locais e sempre em busca de lugares menos, digamos, tocados pelo turismo, optei pelo segundo. Meu objetivo principal era percorrer a trilha que corta a ilha de norte a sul.

O povoado Yumani, que fica no sul da Isla del Sol
O povoado Yumani, que fica no sul da Isla del Sol

Challapampa

Ao desembarcar em Challapampa, logo percebi a hospitalidade do povo. Crianças e senhoras ofereciam quartos aos recém chegados, querendo alugar os cômodos disponíveis que tinham em suas casas a fim de complementar seu sustento, com diárias a um preço médio de B$25 (bolivianos) por pessoa (em quarto compartilhado). Decidi ficar em uma casa de uma simpática senhora, onde dividiria um quarto com Guyo e Damián, um argentino e um equatoriano que conheci no barco.

A Isla del Sol possui cerca de 5.000 habitantes, descendentes diretos dos povos inca e aimará, e se dedicam principalmente ao pastoreio de cabras, vacas e ovelhas. Ali se encontram ruínas e marcos pré-colombianos interessantíssimos, como o Chinkana e a Mesa do Sacrifício no lado norte, e a Escadaria Inca, no sul.

A Mesa do Sacrifício, localizada na parte norte da Isla del Sol
A Mesa do Sacrifício, localizada na parte norte da Isla del Sol

Logo após encontrarmos hospedagem, já no final da tarde, Guiyo, Damián e eu pegamos a trilha rumo à Chinkana, que significa “labirinto” na língua Quéchua. Passamos por várias casas com pequenos currais onde bezerros, vacas e jumentos comiam tranquilamente em seus cochos. Saindo do povoado, nos deparamos com um homem indígena cobrando um “pedágio”. Esses “pontos de controle” existem por toda a ilha, e sua arrecadação é convertida em benefícios para as comunidades. A taxa varia em torno de B$15.

Logo antes de chegarmos à Chinkana, passamos pela “Rocha Sagrada”, uma rocha em formato de mesa ritual que os antigos habitantes usavam para práticas religiosas, que possivelmente incuíam sacrifícios. Mas a grande estrela é realmente “La Chinkana”. É uma construção enigmática, cujos corredores se bifurcam, dando acesso a cômodos que, por sua vez, possuem saídas para outros corredores, que saem em outros cômodos. Não se sabe muito bem que fim tinha a Chinkana, especula-se sobre usos ritualísticos ou políticos.

As ruínas da Chinkana, no norte da Isla del Sol
As ruínas da Chinkana, no norte da Isla del Sol

De volta a Challapampa, já à noite, sentamos em um restaurante muito simples à beira do lago. A dona, uma simpática senhora de origem Aymará, nos preparou a especialidade gastronômica da ilha: “las truchas del Titicaca” (as famosa trutas douradas do lago Titicaca). Enquanto esperávamos, um menino brincava com um revólver de brinquedo, nos “matando” várias vezes…uma comédia! E ele não se cansava daquilo! Ficou por ali até que fôssemos embora.

Um pescador trabalha sobre as águas tranquilas do lago Titicaca, próximo a Challapampa.
Um pescador trabalha ao pôr-do-sol sobre as águas tranquilas do lago Titicaca, próximo a Challapampa.

A trilha

O “Camino Norte-Sur”, como é conhecido pelos moradores locais, remonta à tempos incaicos, e é muito bem marcado, muitas vezes pavimentado com lajotas de pedra. Vai serpenteando pela crista da ilha até o povoado de Yumani. Tem-se uma vista privilegiada da ilha, em grande parte ocupada por antigos terraços agrícolas. A paisagem é incrivelmente bela, com o Lago Titicaca se estendendo por todos os lados e os picos gelados dos Andes erguendo-se ao longe, a leste.

Trecho do "Camino Norte-Sur", que liga o norte ao sul da Isla del sol
Trecho do “Camino Norte-Sur”, que liga o norte ao sul da Isla del Sol

O caminho não tem erro, mas na dúvida, mantenha-se sempre na trilha mais batida, e sempre na crista da ilha. Se começar a baixar, volte e reveja seu caminho!

Saímos de Challapampa bem cedo, e chegamos ao cais de Yumani 3hs30min depois, por volta das 10h. Porém, chegamos ao cais secundário, que fica a oeste, onde pagamos B$20 (cada) ao barqueiro para nos levar de volta à Copacabana.

Se vier do norte, como eu, ao chegar ao coração do povoado de Yumani, pegue a rua à esquerda para descer até o cais principal, e não a rua à direita, como eu fiz.

De volta à Copacabana e rumo à La Paz

De volta à Copacabana, ainda tive fôlego para subir o Monte Calvário, programa indispensável para quem visita a cidade. A subida é penosa, mas vale muito a pena. Pelo caminho, monumentos ilustram os estágios da Paixão de Cristo.

No ponto mais alto do monte existe um grande pátio com um altar, sobre o qual muitas oferendas são deixadas: flores, velas, comida, casinhas e carrinhos de brinquedo, cerveja, vinho, entre outros itens. Em barraquinhas, ali mesmo, você pode comprar uma casinha ou um carrinho e deixar ali como oferenda, com a fé de que a graça Divina lhe conceda algum deles (ou os dois, por que não?) em tamanho real.

O cheiro ali era forte e o chão escorregadio, graças à cera das centenas de velas já queimadas e da cerveja e outras bebidas que os devotos oferecem ao final de sua peregrinação.

O Lago Titicaca visto do alto do Monte Calvário
O Lago Titicaca visto do alto do Monte Calvário

De volta ao ao centro da cidade, tratei de pegar um ônibus local (por meros B$20) que me levaria à La Paz. Sentado na minha poltrona, esperava o início da viagem. Uma família boliviana conversava em um dialeto indígena e um sujeito em uma poltrona próxima não cheirava nada bem.

Nesse mesmo dia ainda viveria muitas aventuras, que incluiriam dividir acento com uma gorda senhora indígena, cuja largura ocupava, além de sua própria poltrona, metade da minha; uma travessia de balsa (nada segura) pelo Estreito de Tiquina e a não menos assustadora hora do rush em La Paz…mas isso é história pra outro post!

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