Fimmvörðuháls – Uma travessia entre geleiras

A Fimmvörðuháls é uma trilha com cerca de 23km de extensão, uma das mais famosas da Islândia. Começa em um lugarejo chamado Skógar e termina em outro chamado Þórsmörk, proporcionando vistas incríveis da costa sul e do interior do país-ilha. Serpenteia pelas margens do rio Skógá e então atravessa o passo Fimmvörðuháls, entre as geleiras Eyjafjallajökull e Mýrdalsjökull, cruzando campos de lava da famosa erupção do vulcão Eyjafjallajökull, aquela que afetou o tráfego aéreo europeu em 2010.

Acessível somente de junho a agosto, o percurso leva cerca de 9 horas e o grau de dificuldade é alto, especialmente quando o passo está coberto pela neve. Essa travessia pode ser feita como extensão de uma outra, a Laugavegurinn, bem mais longa, entre Þórsmörk e Landmannalaugar, e que leva 4 dias e é considerada uma das mais bonitas do mundo.

A impressionante cachoeira Skógafóss, no ponto de partida da Fimmvörðuháls.
A impressionante cachoeira Skógafóss, no ponto de partida da Fimmvörðuháls.
Passei a noite do dia 12 de junho acampado em Skógar, onde está uma exuberante cachoeira de nome Skógafóss, atrás da qual, segundo o folclore islandês, existe um pesado baú cheio de ouro, colocado ali há muitos séculos pelos primeiros moradores da área. De acordo com a lenda, muitos anos depois um menino muito perspicaz tentou removê-lo usando um longo bastão com um gancho na ponta. No entanto, foi capaz de remover apenas a alça do pesado baú, antes que este desaparecesse novamente sob a cachoeira. Os céticos podem conferir a veracidade da história vendo a tal alça, em exposição no museu local de Skógar.

No dia 13 me levantei às 5h30min do meu confortável colchonete inflável, atrasado, após um sono profundo, incapaz de ser interrompido pelo meu despertador. Arrumei todo o material de trekking – o que se resumia, basicamente, a roupas de frio extras e comida – na maior pressa, porém com todo o cuidado possível, para não ter surpresas desagradáveis na travessia.

A trilha começa do lado direito da cachoeira, onde há uma escada metálica com 527 degraus. Por aí comecei, na maior disposição. O céu estava fechado, mas pelo menos não chovia, e a previsão do tempo (nada confiável em um lugar de clima imprevisível como a Islândia), prometia dia ensolarado! Grandes expectativas!

Acampamento em Skógar. A cachoeira Skógafóss ao fundo.
Acampamento em Skógar. A cachoeira Skógafóss ao fundo.
A trilha serpenteia pela margem esquerda do rio Skógá sem grandes dificuldades, bem marcada e sinalizada por estacas de madeira pintadas de azul de 50 em 50m. As inúmeras cachoeiras que são encontradas pelo caminho tornam o visual ainda mais espetacular.

Mais acima, o caminho começou a ficar encoberto pela neve, o que aumentou bastante a dificuldade. Em alguns pontos a neve chegava aos joelhos! Havia nevado na noite anterior e, em alguns pontos, era difícil encontrar a trilha. O sol já brilhava forte, tornando o espetáculo da paisagem nevada ainda mais impressionante!

O rio Skógá.
O rio Skógá.
Há uma ponte, usada como referência, através da qual cruza-se o caudaloso rio Skógá. Eu sabia da existência dessa ponte, no entanto, somente ao final da trilha me dei conta que não a havia visto, pois ela estava encoberta por alguns metros de neve!

Lá pelas tantas, percebi que as marcas na neve seguiam em uma direção, mas as estacas marcavam outro caminho. Um pouco confuso, esperei por duas pessoas que se aproximavam. Eram duas austríacas muito simpáticas, que tinham um mapa, e com elas passei a caminhar, até quase o fim do percurso.

Minhas botas, já curtidas por muitas trilhas, não eram mais aquelas fieis companheiras impermeáveis que um dia já foram. Meus pés ficaram encharcados e, em certo ponto, já não os sentia. Muito incomodado com aquela sensação, procurei sair de cima da neve, próximo ao ponto mais alto da trilha, em um local próximo às crateras Magni e Modi, originadas na erupção de 2010 do vulcão Eyjafjallajökull. O chão estava quente e fumegante devido à atividade vulcânica. Sentamos ao sol e “almoçamos”, cada um o seu sanduíche, trazido nas respectivas mochilas. De sobremesa, chocolate islandês.

Quando recomeçamos a caminhada, meus pés doíam por causa do frio, mas como era bom voltar a sentir os dedos! A imensidão branca e as montanhas geladas me faziam sentir o quão inóspito era aquele lugar e o quão enrascada estaria uma pessoa se estivesse ali em tempo ruim. Em 1970, três trekkers morreram em uma tempestade de neve quando tentavam percorrer a Fimmvörðuháls.

Atravessando o passo Fimmvörðuháls.
Atravessando o passo Fimmvörðuháls.

A paisagem muda completamente após 6h de trilha, quando se alcança um lugar chamado Goðaland, já no vale de Þórsmörk. Um rio corre encaixado no fundo do vale, e rochas vulcanoclásticas formam paredões verticais, às vezes cobertos por musgo. As austríacas dispararam na frente, pois queriam pegar o ônibus das 15h de volta para Skógar. Eu não tinha pressa, queria apreciar o lugar mais tranquilamente, reduzi o passo, com intenção de pegar o ônibus que sairia às 20h.

À medida que perdia altitude, apareciam arbustos retorcidos e pinheiros. Por fim, cheguei à Þórsmörk, um agradável lugar onde existem cabanas para receber turistas.

Cheguei ali por volta das 15h, a tempo de pegar o ônibus, mas o dispensei, pois queria curtir o lugar. Comecei a conversar com um animado islandês de Keflavík, que me contou muitas histórias sobre a cultura islandesa.

Sentei à uma mesa de madeira, ao sol, tirei as botas e as meias e as coloquei para secar, apreciando o calor do sol nos pés. Aos poucos foram chegando outros viajantes: um honconguês, uma tcheca, um inglês, um casal americano, um belga, e logo estávamos todos engajados em um descontraído papo sobre os mais variados assuntos: cultura, política, economia, viagens, etc.

Às 20h embarquei em um ônibus verdadeiramente off-road, com tração nas quatro rodas, assoalho elevado e envenenado, que logo provou sua capacidade, ao atravessar rios caudalosos e terrenos muito irregulares.

Por volta das 22h30min cheguei ao camping em Skógar, satisfeito por um extenuante, porém gratificante dia de trekking, no qual pude contemplar algumas das paisagens mais incríveis que já vi, atravessando terrenos que só havia visto em filmes como “O Senhor dos Anéis” e seriados como “Game of Thrones”. Uma experiência ímpar!

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