O cavalo e o vulcão Paricutín

postado em: Crônicas, México, Todos os posts | 4

Em 1943 um agricultor indígena da região das montanhas centrais do oeste do México foi surpreendido por vapores e cinza quente saindo de seu terreno. Tentou cobrir os buracos, mas logo percebeu que seu esforço era inútil e fugiu. Um vulcão ruidoso começava a surgir e, em um ano, já possuía 410m, tendo inundado dois vilarejos com sua lava. Hoje, o único resquício desses povoados são as ruínas sinistras do templo colonial de San Juan Parangaricutiro.

O vulcão Paricutín continuou a crescer até 1952 e, hoje, seu grande cone negro (a 2800m) sopra vapores quentes constantemente. No entanto, permanece adormecido, o que permite que cheguemos até a cratera para observar a atividade vulcânica e os campos de lava, que se espalham ao seu redor.

A única maneira de se chegar até ali é partindo da pequena cidade de Angahuan, um vilarejo indígena onde todos se comunicam em Purépecha, o dialeto nativo que os nativos herdaram de seus antepassados pré-colombianos. Não há carros, e o meio de transporte mais utilizado pelos locais (além das próprias pernas) é o cavalo. Só estar ali e observar o estilo de vida dos moradores já é uma experiência interessante.

O cavalo e o vulcão Paricutín
O cavalo e o vulcão Paricutín

A Igreja arruinada está na borda do grande campo de lava, sendo possível chegar até ela após uma caminhada de 1h a partir de Angahuan. No entanto, ir até o vulcão é um pouco mais complicado, pois é necessário dar a volta em todo o campo de lava por estradas precárias, cheias de bifurcações e encruzilhadas. O local é meio isolado e não existe nenhuma infra-estrutura turística. Assim, o melhor a se fazer é contratar um guia e alugar um cavalo.

Torres da igreja de San Juan de Parangaricutiro
Torres da igreja de San Juan de Parangaricutiro

Foi assim

Essa aventura fez parte da minha viagem ao México em setembro de 2015. Cheguei a Angahuan bem cedo, em um ônibus local, cheio de nativos, vindo de Uruapan, a maior cidade da região. Eu era o único turista, e todos ali faziam apenas pequenas viagens de um povoado a outro, transitando entre carvoarias e plantações de abacate. Ao notar minha cara de gringo, um sujeito puxou papo, perguntando de onde eu era e pra onde ia. Ele tinha as mãos sujas de carvão, exalava um forte cheiro de álcool, e disse para eu tomar cuidado, pois a região era perigosa, em função da atividade de narcotraficantes. Logo comecei a suspeitar do cara e, quando desci do ônibus, ele veio atrás de mim, querendo mostrar como deveria fazer para chegar ao vulcão. Nunca vou saber se suas intenções eram boas ou não, mas fiquei aliviado quando um senhor se aproximou, oferecendo o aluguel de um cavalo e os serviços de um guia, o que fez com que o sujeito do ônibus se afastasse.

Iniciei as negociações com o senhor, que inicialmente queria cobrar um valor muito alto. Até então eu achava que poderia chegar até o vulcão caminhando, portanto, recusei a oferta, dizendo que ia comer em uma venda ali perto e pensar a respeito.

Dentro da tal venda, uma senhora preparava um guisado para um freguês. Eu perguntei o que era e, mesmo sem entender do que se tratava, pedi que me servisse o mesmo. Comi e saí novamente para a rua, decidido que não ia alugar o cavalo, mas o sujeito veio de novo, perguntando se eu havia pensado. Outra vez recusei. Ele insistiu: “Señor, no se puede caminar hasta el volcán! Está muy lejos!” Não acreditei. Ele resolveu baixar o preço e depois de muito negociar, consegui fechar por um valor que poderia pagar (afinal, estava com o dinheiro contado, pois tinha que pagar o ônibus de volta à Uruapan).

O senhor, chamado Jesus, apareceu com mais um cavalo e começou a me acompanhar pela rua. Chamou um menino de uns 12 anos, de nome Simón, que seria meu guia. Tentei obter algumas informações sobre a região, mas Simón não era muito comunicativo, e seguimos em silêncio pela estrada, contornando o Paricutín de longe. Meu cavalo trotava muito, eu me sentia como um bate-estaca, e por isso, preferi ir bem devagar, para minimizar os efeitos do cavalo trotador.

Cerca de duas horas depois, chegamos aos pés do Paricutín, onde a única estrutura turística era um barraco de madeira no qual um sujeito vendia água, refrescos e amendoins. Simón ficou com os cavalos e eu subi o vulcão, sozinho, com as pernas doloridas após a cavalgada. A trilha, formada por pedras soltas e cinza vulcânica, era fofa e íngreme e, para dois passos que dava, voltava um. Não havia mais ninguém, só eu! Já no topo, dei a volta completa na cratera, apreciando calmamente aquela imensidão enegrecida pela lava solidificada.

No topo do vulcão Paricutín
No topo do vulcão Paricutín

De volta à base do vulcão, pegamos os cavalos e rumamos para a igreja arruinada de San Juan Parangaricutiro. Após duas longas horas no lombo do cavalo trotador, chegamos às ruínas, e que visão impressionante! A parte central da igreja foi totalmente coberta pela lava, tendo resistido somente as torres e o altar, que ainda é cultuado pelos moradores locais, que o enfeitam com flores, velas e bandeirinhas. Minhas pernas, especialmente os joelhos, doíam terrivelmente, acho que levei uns 10 minutos pra voltar a andar normalmente.

Altar da igreja de San Juan de Parangaricutiro
Altar da igreja de San Juan de Parangaricutiro

Começou a choviscar, e voltamos à Angahuan a galope, para que eu não perdesse o ônibus de volta a Uruapan. Às 17:15 estava de volta, esperando o ônibus na beira da estrada, fedendo à cavalo, porém grato por ter alugado a montaria, pois sem ela, e o guia, jamais teria chegado ao vulcão! Sem banho nem refresco, ainda viajaria a noite toda até a Cidade do México…mas isso já é outra história!

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4 Respostas

  1. Adorei o texto! Leve e informativo sem ficar dídatico. A história de como o vulcão se formou no começo foi perfeita!

  2. Maria Eliza

    Lindo, emocionante e, acima de tudo, uma incrível coragem para tal! Ah!! Como é bom esse afã da juventude! Parabéns!

  3. facebook-profile-picture

    Obrigado pelos elogios! Essa foi mesmo uma experiência incrível! E um tanto audaciosa mesmo! hehehehe

  4. Daniela Silva

    O melhor de tudo é que pude ouvi essa história ao vivo e dar muitas risadas!!
    😉

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