O Santuário do Caraça

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O Santuário do Caraça está localizado nos municípios de Catas Altas e Santa Bárbara, em Minas Gerais, e é propriedade da Província Brasileira da Congregação da Missão, uma instituição católica que faz parte da sociedade fundada por São Vicente de Paulo, ou seja, pertence à família Vicentina. Assim, ao contrário do que muitos imaginam, não é um Parque Nacional ou Estadual, mas sim uma reserva particular, classificada como RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural).

É um complexo interessantíssimo, em todos os aspectos: natural, cultural, histórico e espiritual. Fazem parte dele a igreja em estilo neogótico, o prédio histórico onde funcionava a biblioteca do antigo colégio, a pousada e muitos pontos de beleza natural impressionantes, como cachoeiras, picos e paisagens belíssimas! E, como não poderia deixar de mencionar, o astro maior: o lobo-guará que todos as noites (ou quase) vêm se alimentar no adro da igreja, para deleite dos visitantes, atraído pelos nacos de carne deixados pelo Padre Lauro.

A igreja em estilo neogótico do Santuário do Caraça e parte da hospedaria.
A igreja em estilo neogótico do Santuário do Caraça e parte da hospedaria.

O nome

Existem duas hipóteses para o nome “Caraça”: uma delas relacionada ao formato de um rosto humano gigante, formado pela silhueta de parte da serra, que foi assim percebida pelos viajantes que por ali passavam nos idos do século XVIII. A outra se dá pelo significado da palavra “caraça”, que em tupi-guarani que dizer “desfiladeiro”, ou “bocaina”, como é conhecido o vale entre os picos do Sol e Inficionado, os mais altos da região.

Um ponto que pesa contra a primeira hipótese é que o Caraça foi sempre citado no masculino, e nunca no feminino, ou seja, é a “Serra do Caraça”, e não a “Serra da Caraça”, como deveria ser se quisesse dizer “cara grande”, já que “caraça” é um substantivo feminino…Quem sabe!?

A silhueta de parte da serra, que lembra o formato de um rosto humano gigante olhando para os céus
A silhueta de parte da serra, que lembra o formato de um rosto humano gigante olhando para os céus

História do Caraça

Por volta de 1770, a enigmática figura do Irmão Lourenço chega à Serra do Caraça e funda um eremitério, visando o fortalecimento da vida religiosa no interior da capitania das Minas Gerais, a então mais importante da colônia, em razão da feroz corrida em busca do ouro. Assim, irmão Lourenço consegue, com a ajuda do governo colonial, fundar um monastério e uma igreja em estilo barroco, inaugurada em 1779, e assim, atrair uma comunidade religiosa para o local. Irmão Lourenço morre em 1819, deixando o santuário em herança ao rei D. João VI.

D. João VI doa as terras e o eremitério à Congregação da Missão, uma sociedade religiosa masculina Vicentina, e logo os padres transformam o ermitério em colégio, que viria a se tornar referência de ensino para a elite brasileira. Lá estudariam figuras célebres como os futuros presidentes Afonso Pena e Artur Bernardes, entre tantos outros líderes políticos e importantes autoridades eclesiásticas. No século XIX o colégio foi visitado pelos imperadores D. Pedro I e D. Pedro II. De tão impressionado, este último disse “Só o Caraça vale a toda a viagem a Minas Gerais”.

Na segunda metade do século XIX a pequena igreja barroca do Irmão Lourenço foi desmanchada para dar lugar à imponente estrutura em estilo neogótico que se pode ver hoje.

O colégio funcionou até 1968, quando um trágico incêndio pôs fim à sua vida acadêmica, tendo destruído parte das instalações e do acervo da biblioteca.

O prédio destruído foi restaurado em 2002, e hoje funciona como museu, que, juntamente com a igreja, a hospedaria, as cachoeiras e as trilhas, forma o conjunto que tanto atrai a atenção de visitantes de várias partes. O lugar é realmente único, e possui uma energia muito boa!

O antigo prédio atingido pelo incêndio que pôs fim ao colégio do Caraça. Hoje funciona como um muito bem cuidado museu
O antigo prédio atingido pelo incêndio de 1968, que pôs fim ao funcionamento do prestigiado colégio do Caraça. Apesar do aspecto fantasmagórico, hoje funciona como um muito bem cuidado museu

Parque Natural

O Santuário do Caraça foi classificado como Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) em 1994, por iniciativa própria da Província Brasileira da Congregação da Missão, visando a preservação da área contra possíveis interesses danosos. É previsto em lei que apenas atividades de pesquisa científica, e de visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais são permitidas em uma RPPN. O título oficial de Santuário foi, na verdade, concedido somente em 2005, pelo Arcebispo de Mariana, Dom Luciano P. Mendes de Almeida.

A região é, de fato, um santuário, onde rica flora e fauna convivem em harmonia. Orquídeas, candeias e ipês, isso só para citar uma ínfima parte do acervo botânico do Caraça, bem como alguns representantes da fauna: tamanduás, onças, antas e o lobo-guará.

A Sempre Viva, típica flor do cerrado
A Sempre Viva, típica flor do cerrado

 

Atividades e atrativos

Picos: minha atividade preferida: a subida dos picos do Caraça, que sempre proporciona experiências e vistas incríveis. São 7 os que podem ser alcançados por trilhas a partir da igreja: Sol, Inficionado, Verruguinha, Carapuça, Conceição, Três Irmãos e Canjerana. Geralmente são passeios que levam o dia todo. A presença do guia cadastrado é obrigatória, é contra as normas do Parque subir sem guia.

Eu e o João Júlio, um dos guias oficiais do Caraça
Eu e o João Júlio, um dos guias oficiais do Caraça, no alto do Inficionado, o segundo pico mais alto do Caraça. Atrás, as fendas da “Garganta do Diabo”

Cachoeiras e riachos: apesar de frias e escuras, as águas do Caraça são ideais para um banho. As cachoeiras mais conhecidas são a Cascatinha, a Cascatona e a da Bocaina. E não se preocupe com os girinos…apenas curta o banho.

Trilhas: são inúmeras, muitas das quais tem dificuldade baixa. Saia por aí, explore, visite a Capelinha, a Gruta de Lourdes e os mirantes.

Flora e fauna: como um santuário ecológico, o lugar é ideal para a observação de plantas e animais. Bata um papo com os monitores e guias, eles têm muito a ensinar! E observe em primeira mão espécies endêmicas que ocorrem por ali. E outra coisa: não perca a visita do lobo-guará! Todas as noites (ou quase) ele vem se alimentar no adro da igreja. Mas não seja impaciente, ele (ou ela) não tem hora marcada, e pode aparecer a qualquer momento, inclusive de madrugada. Eu dei sorte, fiquei esperando até às 23:00hs e vieram dois!

Vida religiosa: mesmo se você não for um católico fervoroso, após a visita vai admitir: existe uma energia espiritual realmente poderosa por ali. Visite a igreja, o Calvário, converse com os padres, assista à uma missa. Garanto, será uma experiência interessante!

Casal de lobos-guará no adro da igreja do Caraça e os interessados espectadores, que tiram fotos freneticamente
Casal de lobos-guará no adro da igreja do Caraça e os interessados espectadores, que tiram fotos freneticamente
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4 Respostas

  1. Maria Eliza

    Sensacional! Curti com muito gosto e interesse essa interessante descrição desta região tão rica, interessante e , no entanto desconhecida pela gente é tão próxima! Parabéns, Gabriel, pela explanação tão clara, objetiva,rica que, aliás, é a característica de suas descrições!

  2. Deixo também como recomendação a pousada do Sr. Sânzio, logo antes da entrada do parque, a qual possui local para acampamento e local muito receptivo e aconchegante

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    Obrigado Maria Eliza! É muito bom receber elogios assim! Inspiração para escrever mais!

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    Boa Artur! Já fiquei lá tb, a pousada do Sânzio se chama Pico do Sol (http://www.picodosol.com.br/)! Ótimo café da manhã!

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