A temível travessia da Serra Fina

A Serra Fina é uma porção da Serra da Mantiqueira, e sua crista compõe parte da fronteira entre os estados de Minas Gerais e São Paulo. Além de incluir o quinto pico mais alto do Brasil, a Pedra da Mina (2798 m), outros dois picos se destacam, e também devem ser vencidos na travessia: o Pico do Capim Amarelo (2491 m) e o Pico Três Estados (2665m). travessia serra fina
Alvorada na Serra Fina. Vista do alto do Pico Três Estados.
Alvorada na Serra Fina. Vista do alto do Pico Três Estados.

travessia serra fina

A Travessia da Serra Fina é apontada por muitos como a mais difícil do Brasil. São cerca de 33km em terreno extremamente acidentado, percorrendo um extenuante sobe-e-desce que colocaria à prova os joelhos de um cabrito montês! A cidade-base para o início da travessia é a simpática cidade de Passa Quatro, no sul de Minas Gerais, e o fim se dá na BR-354, nas proximidades de Itamonte, também em Minas. travessia serra fina

E por que ela é considerada tão difícil?
  1. As distâncias verticais são consideráveis, isto é, os desníveis são abruptos e constantes, para cima e para baixo, com muitas escalaminhadas;
  2. O clima é instável, e o mau tempo pode arruinar seus planos;
  3. São poucos os pontos de água, o que nos obriga a carregar o peso extra desse precioso líquido na mochila, já pesada com todo o equipamento de frio e comida;
  4. Em muitos trechos a trilha é difícil de ser localizada, passando por mata fechada, onde trilhas laterais podem confundir o trilheiro desavisado.

Ou seja, esse está longe de ser um simples passeio de domingo no parque. Tenha isso em mente, mas também não é preciso ser um corredor de montanha, ou um sherpa dos Himalaias. Apenas tenha consciência de seus próprios limites físicos e psicológicos antes de enfrentar o desafio!

Geralmente se completa a travessia em 4 dias mas, dependendo da disposição e preparo do grupo, pode-se fazer em menos. Como fiz essa travessia nos tradicionais 4 dias, as orientações abaixo estão adequadas a esse número. travessia serra fina

Adaptar seu planejamento para o número de dias que deseja não é difícil. A grande diferença é com relação à quantidade de água e comida que precisará ser carregada. Regra básica: quanto menos dias, menos peso se carrega, logo, mais rápido se pode caminhar.

Recomendações gerais

Vá com guia ou, se é um trilheiro bastante experiente, indo por conta própria, leve GPS com tracklog, mapas e roteiros impressos. Fique atento aos totens e fitas amarradas à vegetação, que indicam o caminho certo.

Fui com o William, da agência Andar, de Passa Quatro. O cara é uma figura! Gente boa demais! Recomendo! travessia serra fina

Imprevistos acontecem. Tenha uma atitude positiva perante as possíveis adversidades e haja com racionalidade. Durante o planejamento inclua “planos B” no roteiro. É sempre bom saber o que fazer em caso de acidentes ou mau tempo. Tenha em mente áreas alternativas para acampar e rotas disponíveis para se abortar a missão.

Caso esteja indo em alta temporada e/ou feriados prolongados, saiba que vai ter muita gente na montanha. Chegue cedo nas áreas de camping ou considere as áreas alternativas.

Roteiro sugerido

Apesar de o meu grupo não ter seguido esse roteiro, ele é o mais adequado para 4 dias, pois distribui melhor o tempo e o esforço físico.

Dia 1 – Toca do Lobo ao Cume do Capim Amarelo

Sem grandes dificuldades de navegação, este é um trecho com trilha bem marcada. A subida inicial, logo após o riacho (primeiro ponto de água) na Toca do Lobo, é extenuante, assim como o ataque ao Capim Amarelo. Se prepare para um bocado de escalaminhada no ataque ao Capim.

Parte da trilha na crista da serra no primeiro dia.
Parte da trilha na crista da serra no primeiro dia.

Dia 2 – Cume do Capim Amarelo ao Cume da Pedra da Mina

Dia difícil. A descida o Capim Amarelo é cruel, assim como a subida da Pedra da Mina, em cuja base localiza-se o segundo ponto de água do percurso e uma boa área alternativa para acampar. travessia serra fina

A navegação pode ser problemática, pois existem lajes de pedra, onde a trilha se perde, e áreas de capim alto, com muitas bifurcações.

No alto da Pedra da Mina deixe uma mensagem no livro do cume.

Dia 3 – Cume da Pedra da Mina ao Cume do Pico Três Estados

Acorde de madrugada para não perder o nascer do Sol no ponto mais alto da travessia!

A descida da Pedra da Mina é relativamente tranquila, mas a travessia do Vale do Ruah, não. Embora seja um trecho plano, é um charco com muitos atoleiros, buracos, touceiras traiçoeiras e capim alto, o que torna a navegação difícil, principalmente no início da alta temporada, quando o mato ainda não foi cortado pelos muitos trilheiros que passarão por ali. Mas nem tudo são espinhos! O vale é muito bonito, e aqui tem água pra beber e áreas alternativas para acampar!

Depois do Vale do Ruah, um cansativo sobe-e-desce passando pelo Pico do Cupim do Boi e, por fim, o ataque ao Pico Três Estados.

Esse dia é de difícil navegação. Além da dificuldade de atravessar o Vale do Ruah existem lajes de pedra nas quais a trilha se perde. Fique atento aos totens e fitas presas à vegetação. travessia serra fina

Caso precise abortar a travessia, por motivos de mau tempo ou fadiga, tome a trilha do Paiolinho, que começa no cume da Pedra da Mina, descendo à esquerda. Mas tenha em mente que será um dia inteiro caminhando até chegar ao fim.

Dia 4 – Cume do Pico Três Estados à BR-354, passando pelo Sítio do Pierre

O dia mais tranquilo. Embora com muitos sobe-e-desce, a maior parte do trecho é de descida, muitas vezes em meio à mata de bambuzinhos bem fechada. A navegação é bem tranquila. travessia serra fina

O que levar

Considerando que a Travessia da Serra Fina não é um simples trekking, mas uma travessia de montanha, na qual se pode enfrentar temperaturas negativas, chuva, vento e outras mazelas do clima, há considerações que devem ser feitas antes de encará-la. A primeira é quanto ao planejamento do que levar. Existem itens que são importantíssimos (alguns indispensáveis) para o sucesso da expedição:

  • Água e comida! – genial, óbvio!
  • Roupas básicas – camisetas de malha ou dry fit, calças, meias, roupas de baixo.
  • Roupas de frio adequadas (segunda pele inferior e superior, fleece, toca, luva, anorak)
  • Roupas impermeáveis (capa de chuva, calça impermeável) travessia serra fina
  • Barraca de boa qualidade, que suporta chuva e vento
  • Saco de dormir para temperaturas negativas
  • Isolante térmico travessia serra fina
  • Botas boas, impermeáveis e amaciadas.
  • Sacos plásticos para isolar suas coisas dentro da mochila, abrigando-as da chuva. Sugiro aqueles sacos grandes, usados para lixo.
  • Lanterna
  • GPS, mapas e relatos impressos (para quem vai sem guia, apesar não recomendado!!!). Excelentes relatos no Coconomato.com e Trekkingbrasil.com.
  • Kit primeiros socorros e “farmacinha”– curativos, bandagens, gaze, esparadrapo, antialérgico, gelol, anti-inflamatório, analgésico, antidiarreico, antitérmico, pomadas para queimadura e picadas de insetos, etc.
  • Papel higiênico
  • Pá para enterrar dejetos e lixo orgânico (por favor, longe da trilha principal e das áreas de acampamento!!!)
  • Mochila cargueira para carregar isso tudo e respectiva capa impermeável

E alguns itens opcionais

  • Bastões de trekking – sensacionais para aliviar os joelhos nas descidas e ajudar as pernas nas subidas
  • Cachecol travessia serra fina
  • Balaclava (uma espécie de toca ninja)
  • Câmera
  • Canivete travessia serra fina
  • Meias próprias para trekking

Água

Há quatro pontos de água óbvios e fixos (fora aqueles intermitentes, com os quais não se pode contar, e outros fora da trilha principal):

  1. No início da travessia, na Toca do Lobo
  2. Na base da Pedra da Mina, onde se chega na tarde do segundo dia
  3. No final do Vale do Ruah, onde se chega no meio da manhã do terceiro dia
  4. Já nos finalmentes, numa antiga estrada, sentido Sítio do Pierre, uma bica d’água à direita

Com relação à quantidade, faça as contas: quanta água você bebe no seu dia a dia? Considere que vai caminhar sob sol quente o dia inteiro e multiplique essa quantidade. Além disso, quanto você acha que vai usar para cozinhar? Sugestão:

Dia 1 – Você pega água no início do dia, e depois, só na tarde do dia seguinte. Assim, na Toca do Lobo, pegue uns 6 litros. travessia serra fina

Dia 2 – O segundo ponto de água do percurso é na base da Pedra da Mina, aonde se chega na tarde do dia 2. Depois, já no Vale do Ruah, no final da manhã do dia 3, está o terceiro ponto. Então, na base da Mina, pegue de 3 a 4 litros.

Dia 3 – No final do ale do Ruah pegue água suficiente para até o final do dia 4, pois o quarto ponto será já quase no final da travessia. Sugiro 6 litros.

Dia 4 – Já  quase no final do percurso, em uma antiga estrada que vai até o Sítio do Pierre. Uns 2 litros te abastecem até o final.

Riacho no final do Vale do Ruah. O terceiro ponto de água da travessia.
Riacho no final do Vale do Ruah. O terceiro ponto de água da travessia.

Comida

O que levar de comida vai do gosto de cada um, mas, em geral, rango de trilha tem que ser fácil, prático e leve! Sugiro o seguinte:

Café da manhã – Café solúvel, leite em pó, chá, açúcar, pão sírio, queijo, geleia, granola, nutella. travessia serra fina

Petiscos – Barras de cereais, frutas secas, nozes, castanhas, chocolate.

Lanche – Pão de forma, queijo, salame, chocolate. travessia serra fina

Jantar – Arroz, macarrão (instantâneo ou não), massa de tomate, legumes, linguiça defumada, carne seca, frango desfiado, batata palha, etc.

Evite alimentos muito salgados, pois vão te fazer sentir mais sede. travessia serra fina

O jantar é a refeição mais completa do dia, porque é a única em que estão todos relaxados e com tempo, após um dia inteiro caminhando.

Quando ir

O clima no sudeste do Brasil tem duas estações do ano bem definidas, certo? Chuvas e estiagem. A temporada de montanhismo é, portanto, na estiagem, de abril a setembro. Fora dessa época, o risco de chuvas, tempestades e trovoadas é alto. Ninguém quer ser pego por uma tempestade de raios na crista de uma serra, certo?

Como já dito, o mais importante nessa travessia é a consciência dos seus próprios limites e o planejamento! A trilha é, de fato, difícil, mas com disposição, experiência e bom senso, não tem erro! Siga as recomendações! Seja prudente e, acima de tudo, respeite a montanha!
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2 Respostas

  1. Fala pessoal do Azimute Livre beleza?

    Ficamos felizes de terem feito a travessia utilizando nosso relato!

    A idéia é essa, ir se divertir e curtir a natureza!

    Forte abraço!

  2. facebook-profile-picture

    E aí Raphael! Tudo tranquilo?!
    O relato de vocês é muito bom!! Salvou minha travessia! Fiz questão de colocar um link pra ele!
    Abração!

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