Trekking em Torres del Paine

O Parque Nacional Torres del Paine fica na patagônia chilena, no extremo sul do país, e é, sem dúvida, uma das regiões mais exuberantes da Terra. Com lagos azul-turquesa, rios caudalosos e formações rochosas impressionantes, é o destino ideal para trekking e escalada. Um lugar mágico, onde o contato com a natureza pode nos transformar profundamente.

A cidade mais próxima é Puerto Natales, com cerca de 20.000 habitantes, um lugar pacato, onde não há muito o que fazer, com telhados coloridos e um porto movimentado. Dali pode-se tomar um ônibus para o Parque, uma jornada que leva cerca de 3 horas. Encontram-se facilmente lojas para aluguel de equipamento de camping e para comprar comida de trilha. Na verdade, parece que tudo ali gira em torno disso.

Os percursos de trekking mais badalados no Parque são o “Circuito W” (que leva 4 dias) e o “Circuito O” (8 dias), chamados assim pelo desenho que fazem quando se olha em mapa. Trilhas mais curtas, ou mesmo partes dos circuitos acima podem ser feitas em um dia, em esquema bate-e-volta, mas o que vale a pena mesmo (e muito!) é ficar alguns dias acampado no parque.

Orientações valiosas sobre as trilhas e informações gerais sobre Torres del Paine podem ser obtidas todos os dias às 15hs no bar do hostel Erratic Rock, em Puerto Natales. É de graça, todos são bem vindos, e, de quebra, faça amizades em meio à uma galera bacana!

(veja aqui dicas para a prática do trekking)

As Torres del Paine
As imponentes Torres del Paine, que dão nome ao Parque Nacional.

 

Trilhando o Circuito W em Torres del Paine

Eu já estava viajando pela Patagônia há alguns dias, tendo passado por Ushuaia, El Calafate e El Chaltén. Já tinha visto lagos de cores de cair o queixo, formações rochosas impressionantes e estepes de se perder de vista, mas os 4 dias perambulando sozinho por Torres del Paine, pelo Circuito W foi uma experiência inigualável. Eu ia no meu próprio ritmo, observando tudo, sem pressa de chegar à lugar algum, apenas com o roteiro em mente, um mapa e, claro, todo o equipamento de camping e comida nas costas.

Vim de ônibus de Puerto Natales, onde aluguei o equipamento (barraca, isolante térmico, saco de dormir e kit-cozinha) por 8.500 pesos chilenos (CLP). Um valor justo para 4 dias, considerando que a pernoite nos albergues mais baratos custa cerca de 8.000 CLP.

Imagem Torres del Paine 4
Imagem Google Earth mostrando o Circuito W no Parque Nacional Torres del Paine

Dia 1:

Campamento Paine Grande – Glaciar Grey – Campamento Paine Grande

O primeiro vislumbre que tive das formações chamadas “Cuernos del Paine”, ainda do ônibus, é quase indescritível. Céu azul, poucas nuvens cobriam os picos, e o sol brilhava forte.

Entrei no Parque pela Guarderia Laguna Amarga, onde todos tiveram que descer do ônibus para pagar os 18.000 CLP de ingresso e assistir às orientações básicas, dadas pelos guardaparques. Voltei para o ônibus, pois seguiria até a a Guarderia Pudeto, onde pegaria a catamarã para atravessar o Lago Pehoé e finalmente começaria o circuito, partindo do Campamento Paine Grande.

O barco seguiu pelas águas agitadas do lago de cor azul-turquesa até chegar ao ponto inicial da trilha. Fazia sol e a temperatura era boa, mas o vento castigava, o que tornou a tarefa de armar a barraca extremamente difícil. Preferi deixar tudo pronto pra não ter que fazer isso quando voltasse do Glaciar Grey, no fim do dia, já cansado.

Campamento Paine Grande
O Campamento Paine Grande e os Cuernos del Paine ao fundo. A barraca armada (depois de muito custo)

Por volta das 14hs peguei a trilha rumo ao Refúgio Grey, que fica próximo ao glaciar, trecho que compõe o primeiro braço do “W”. Às 17hs cheguei ao ponto final, de onde podia ver o Glaciar Grey de frente. Os icebergs espalhados pelo lago estavam tão próximos que quase podia tocá-los. Voltei para o Campamento Paine Grande, aonde cheguei às 21hs, com o dia ainda claro, afinal, era verão na patagônia, e os dias são longos.

Aproveitei as comodidades oferecidas pelo camping e tomei um banho (seria o último em três dias. Nos próximos acampamentos não existem chuveiros).

Dia 2:

Campamento Paine Grande –  Campamento Italiano – Vale del Francés

O dia amanheceu com o tempo fechado. Podia ouvir a chuva batendo na lona da barraca e ver o céu nublado através das janelas. Bateu aquele desânimo. Esperei um pouco até que estiasse um pouco. Eram aproximadamente 8hs quando comecei a arrumar minhas coisas, sem pressa, socializando com o pessoal do camping e trocando ideias sobre as experiências que cada um vivia naquele lugar incrível.

Saí do Paine Grande rumo ao Campamento Italiano por volta de 11hs, enfrentando muito vento. Logo as nuvens se dissiparam e o céu se abriu, revelando um dia limpo e livre de chuva. Cheguei ao Campamento Italiano exausto pela caminhada com o peso da mochila cargueira. O sol estava forte, e ventava muito, o que conferia um som agradável de folhas balançando ao acampamento, que fica dentro de um bosque com árvores altas.

No mesmo esquema do dia anterior, armei a barraca, peguei a mochila de ataque e subi o caminho para o Vale del Francés, rumo ao Mirador Británico. A trilha serpenteia pelo vale, proporcionando uma caminhada muito agradável, com alguns trechos íngremes, e outros muito pedregosos. Às vezes, era difícil encontrar a trilha, mas nada demais, logo à frente voltava a vê-la.

Às 16:45 cheguei ao Mirador Británico, e não consigo descrever a beleza da vista que se tem de lá, e nem as fotos podem fazê-lo fielmente. Um lugar absolutamente fantástico, O tempo estava perfeito, o sol batia lateralmente nas enconstas dos picos, as luzes, as diferentes tonalidades de cores das rochas e o contraste da neve produziam um espetáculo surreal. Os Cuernos del Paine se apresentavam imponentes, ensolarados, com um fundo azul que realçava a silhueta das montanhas.

Mirador Británico, após subir o Vale del Francés
No Mirador Británico após a subida do Vale del Francés

Tirei muitas fotos, na tentativa de capturar aquele momento e visual incríveis. Tive uma sensação de liberdade revigorante e, após mais de 1 hora de contemplação, comecei a descer a trilha, de volta ao Campamento Italiano.

Na volta podia ver mais claramente o Glaciar del Francés e a imponência do Cerro Paine Grande, constituído por uma rocha escura, cheia de dobras. O rio del Francés corria ruidoso no vale abaixo, e muitos cursos d’água curtos, vindos do degelo do glaciar despencavam encosta abaixo, virando fumaça antes de tocar o chão.

Várias paradas depois, para mais fotos, um lanche e muita contemplação, às 20hs cheguei ao acampamento. No abrigo fiz meu miojo e fui dormir, já quase às 23hs, e o céu ainda estava na penumbra pós pôr-do-sol.

Rio del Francés, Torres del Paine
O rio del Francés, que dá nome ao vale

Dia 3:

Campamento Italiano – Campamento Torres

Chovia quando saí do Campamento Italiano, às 10hs20min, e assim foi durante quase todo o dia, exceto por alguns curtos períodos, quando o sol aparecia entre as nuvens. Subindo a trilha que bordeja o lago Nordenskjöld, as rajadas de vento eram violentas, e muitas vezes era preciso me abaixar para que não fosse arremessado para os lados. As fortes correntes de ar formavam redemoinhos na superfície do lago, e jogavam sprays de água para as alturas.

Às 17hs15min cheguei ao Refugio Chileno, junto com uma tropa de cavaleiros trazendo madeira e mantimentos. Fiquei tentado a ficar por ali, pois já estava exausto, mas queria chegar ao Campamento Torres para ver o nascer do sol nas Torres no dia seguinte.

Esse trecho final foi difícil, parecia que a mochila pesava o dobro do início do dia.

No Vale Ascencio, por onde sobe a trilha ao Campamento Torres, a paisagem é bem diferente das outras que já havia visto no Parque. Rochas escuras com estruturas tabulares são cortadas por formações de coloração mais clara, que formam protuberâncias nas encostas. Inúmeros cursos d’água quase verticais escorrem pela vertente sudoeste do Cerro Paine, rumo ao rio Ascencio.

Quanto alívio senti ao ver a placa “Campamento: 1min” e logo fui saudado por um guardaparques que me chamou para fazer o registro de que ficaria no acampamento por uma noite. Logo montei a barraca, ainda chovia, e aquela noite seria fria. Arrumei minhas coisas e fui jantar o tão esperado miojo e uma sopa instantânea, um verdadeiro banquete após um dia cansativo. Os dedos dos pés estavam esfolados pela caminhada, e foi preciso encapá-los com esparadrapo, para evitar mais bolhas e feridas.

Campamento Torres
A entrada do Campamento Torres

Conversando com um dos guardaparques à porta da cabana onde eles ficam, na verdade um barraco rústico de madeira, iluminado no seu interior somente por uma vela, descobri que há 18 microclimas diferentes no Parque, o que torna a previsão do tempo algo praticamente impossível. O regime de trabalho desses caras é algo penoso! 11 dias aqui, faça chuva ou sol, calor ou frio, e 4 dias de descanso em Puerto Natales.

Fazia muito frio, estava cansado, mas me sentia muito bem, satisfeito por estar ali, apreciando paisagens indescritíveis e caminhando naquele lugar sensacional!

Dia 4:

Campamento Torres – Torres – Refugio Las Torres

Fazia muito frio quando acordei, às 4hs15min. Foi duro sair do saco de dormir, e mais ainda da barraca, para iniciar a trilha rumo ao objetivo máximo do circuito: as Torres del Paine propriamente ditas, três picos de granito que se erguem imponentes sobre um lago azul-turquesa. Comecei a subida no escuro, munido de uma lanterna de mão. O propósito de acordar tão cedo era pegar o nascer do sol nas Torres.

O caminho é íngreme e o trecho final, bastante rochoso, porém curto. Cerca de 1h depois de sair do acampamento, já chegava às Torres, quando o horizonte leste já tomava as cores da alvorada. No céu havia poucas nuvens. Me acomodei atrás de algumas rochas, abrigado do vento, para assistir ao espetáculo da luz do sol atingindo as paredes dos picos, o que dava a eles uma tonalidade alaranjada intensa. Fazia muito frio, o vento soprava forte, arremessando cristais de gelo que machucavam os olhos, mas tudo valia a pena, e fiquei ali por mais de uma hora.

Por fim, comecei a descer a trilha e, de volta ao Campamento Torres, desarmei acampamento, joguei a mochila nas costas e segui rumo ao ponto final do circuito: o Refugio Las Torres, onde pegaria o ônibus de volta a Puerto Natales.

Torres del Paine
O tão sonhado nascer do sol nas Torres del Paine!
Apesar do frio, da falta de banho por três dias, e dos banheiros improvisados, cada minuto em Torres del Paine foi sensacional! Não foi minha primeira vez com experiências assim, mas sempre acho interessante observar como certos confortos do cotidiano passam despercebidos quando estamos vivendo nossas rotinas. E o quanto esses confortos são dispensáveis quando se vive momentos especiais em lugares incríveis!

 

 

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